Olhando Melhor
a Violência.
O problema da violência nos grandes centros urbanos do País tem sido olhado de
diferentes pontos de vista, muitos deles importantes e até fundamentais.
Tem faltado à maioria das análises, no entanto, o que se poderia chamar de a
visão interna dessa monumental questão.
Na falta desse entendimento, os aspectos sociais, políticos, econômicos e
administrativos do drama da violência no Brasil parece que já foram vasculhados
em todos os detalhes, e em torno deles parece pairar um consenso.
Mas essa abordagem já não nos satisfaz inteiramente, porque deixa de lado a
mola central do problema, que é justamente o conjunto de motivos e estímulos
que leva os homens — e cada um de nós em particular — a sentir, pensar e
agir violentamente no mundo em que vivemos.
Uma abordagem moral e religiosa pode levar-nos até bem perto disso, mas ainda
assim ficaremos talvez à margem da realidade se não olharmos a violência como a
“nossa” violência, e não a violência do outro, como é bem mais fácil
entendê-la.
Ver o pequeno, habitual e rotineiro impulso violento em nós mesmos, no instante
mesmo em que ele nasce e cresce em nosso íntimo, é tarefa das mais difíceis,
embora seja de efeito dos mais gratificantes.
É exatamente nos contatos mais difíceis, nas relações mais próximas, nos
momentos mais delicados, quando agimos quase sem pensar, é geralmente ai que está
a chave do problema.
Como evitamos, adiamos ou cobrimos esses instantes com palavras, a experiência
complicada e cheia de armadilhas.
A verdade é que se chegarmos até esse ponto querendo fazer mudanças para
“melhorar nossa vida”, pouca coisa veremos na nossa paisagem
psicológica interior.
Um velho preceito de medicina recomenda interrogar o paciente a partir daquilo
que o motivou a procurar o médico.
Na investigação das raízes da violência em nós, suas vítimas potenciais,
devemos seguir na mesma direção, mas a partir de um certo ponto devemos fazer
um desvio.
É preciso descobrir nossa contribuição no agravamento dos sintomas, nossa
“culpa” no caso, como a ingestão de alimentos nocivos ou nossos
atos prejudiciais.
Na questão que nos interessa agora — a brutalidade no mundo em que vivemos
— devemos olhar diretamente nos olhos da nossa indiferença diante da pequena
violência doméstica que deixamos passar para o mundo, semeando a grande
violência de que padece a humanidade.
Olhar para nossos pequeninos “defeitos” — vamos chamar assim para
localizar esses germes — é uma prática saudável mas que requer humanidade e
sutileza.
No caso, a minha impaciência é mais importante que a injustiça do outro.
Minha pressa pode ser o disfarce de uma intolerância.
Meu hábito de corrigir o próximo pode estar dissimulando minha irritação com as
minhas próprias imperfeições — que mal percebo e que vagamente me incomodam.
Sabe aquela coisa que algumas religiões chamam de “exame de
consciência”? Pois é mais ou menos isso.
Vejo então (e às vezes não consigo ver) que meu olhar dirigido para dentro me proporciona
uma objetividade que nunca tive antes.
Vejo agora um pouco mais claramente e — o que é melhor — quero conhecer
outros ângulos daquele quarto escuro que é meu mundo interior, de onde saem os
temores, os desejos confusos e finalmente esse animal selvagem que é a
violência, que me faz cometer injustiças e me comportar como um pequeno rei
enlouquecido.
Ai talvez esteja começando a entender a violência em que todos vivemos
mergulhados ultimamente.
SÉRGIO LUIS
ALMEIDA LISBOA ADVOGADO